sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um intransigente defensor do direito a vida - Abril de 2010


É o que se lê na placa inaugural do Largo Glênio Peres. Uma referência à atitude existencial do advogado, jornalista, ator, poeta e político que empresta o nome àquele local.
Glênio Peres, entre outras coisas, trabalhou no Diário de Notícias, no O Estado do Rio Grande, foi colaborador do Pasquim e da revista Cadernos do Terceiro Mundo. Vereador em Porto Alegre, por três mandatos, foi cassado em 1977 com base no AI5. Anistiado em 1979 foi um dos fundadores do Partido Democrático Brasileiro. Sigla pela qual conquistou o seu quarto mandato de vereador e, também, foi eleito vice-prefeito em 1985 no mandato de Alceu Colares. Faleceu em 27 de fevereiro de 1988.
Em 1992 foi homenageado, pela cidade que ajudou a construir, com a colocação de seu nome no largo em frente ao Mercado Público, ponto central da capital de todos gaúchos e gaúchas.
O Largo é o centro, o coração da capital. E pulsa. No ritmo da cidade, no ritmo de Glênio Peres. Diariamente passam e estão por ali milhares de pessoas. Emolduradas pelo Mercado e o Chalé, compõem um cenário único, multifacetado, capaz de revelar como somos. Um recorte, do conjunto de seres e seus costumes, desta cidade grande.
            Pois, no dia 22 de março, li a notícia no RS Urgente: Coca Cola vai cuidar do Largo Glênio Peres e da Praça XV.   
            Foi o único blog onde encontrei alguns comentários sobre a notícia. Mais precisamente 25 comentários, que davam conta da contrariedade que sentiam pelo fato, a maioria das pessoas que ali postavam sua opinião.
 No dia 25 de março foi assinado o termo de adoção. O valor do investimento da Coca Cola representada no negócio pela Vonpar Bebidas, será de um milhão de reais.
                Certamente esta adoção produzirá modificações no local. Todas serão alardeadas, nos meios de comunicação tradicionais, como sendo “melhorias”. Mas, arrisco dizer, que nenhuma delas vai beneficiar aos pequenos produtores, que contribuem com a diversidade e autenticidade do local, quando o usam para mostrar e comercializar o que produzem. Estou pessimista em relação à continuidade dos eventos ali realizados. Pelo menos daqueles que reúnem pequenos produtores, como eu. Mais dia... Menos dia...
            São preocupações que aumentam quando noto não existir nenhuma discussão em relação a esta adoção ou, pelo menos, buscando saber quais são as normas que vão regê-la. Quantos espaços públicos da cidade ainda serão postos para adoção? Algumas destas áreas, que porventura vierem a transformar-se em parcerias público-privadas, são acessadas por trabalhadores (as) da agricultura familiar, por artesãos e a artesãs, artistas plásticos, atuadores de teatro de rua, artistas de rua, pequenos empreendedores da alimentação? Quais as regras gerais que regulam as parcerias público-privadas? Deve existir uma lista de locais em que a administração municipal prevê estas parcerias.
Estas preocupações não são apenas minhas. A adoção do Largo Glênio é um fato que preocupa todos que necessitam dos espaços públicos para trabalhar.
 Faltam 4 anos para a Copa do Mundo. A tendência dos grandes empreendedores da economia convencional em investir e ocupar espaços públicos deve criar corpo, de agora até lá. A permuta do terreno da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo é um exemplo disto. Mas este é um que está sendo discutido na Assembléia Legislativa. E aqueles que serão tratados como parcerias público-privadas? Quem vai discutir? A adoção do Largo Glênio Peres foi discutida com alguém?   
            Está passando da hora de fazermos uma reflexão sobre isto. Esta adoção não é um caso isolado e o histórico de atuação da atual administração municipal, mostra outros descasos com pequenos produtores. Basta olhar a situação atual do Brique da Redenção.
 As entidades de organização dos trabalhadores (as) que acessam espaços públicos para desenvolver seus trabalhos precisam chamar seus filiados para fazer esta reflexão. Primeiro no interior de cada categoria. Em um segundo momento, com o conjunto de todas elas. Penso que a estratégia deve prever a participação do conjunto de categorias.
A discussão isolada é um equívoco.  A atuação da comissão deliberativa do Brique da Redenção no caso da invasão do espaço indígena da feira é um exemplo disto. Houve erro na condução. Fizeram a cobrança da fiscalização da Smic, sem ao menos discutir a estratégia com os expositores, muito menos com o conjunto da categoria. Penso que a discussão não teve nem a participação de toda comissão. Não entenderam bem o que estava acontecendo, supervalorizaram a representatividade que tinham como comissão. E, deu no que deu. O Brique que poderia crescer em número de participantes com o controle da comissão, está e vai continuar crescendo sob o controle do acaso, ou de outros interesses.  
No caso do Brique, a questão foi pontual, o peso era um. A invasão foi feita por pequenos revendedores. No caso atual, o da adoção do Largo e o dos negócios que virão até a Copa do Mundo têm outro peso. A Vompar, que está colocando o pé no Largo, é franqueada pela maior fábrica de refrigerantes do mundo. Um dos maiores símbolos mundiais do capitalismo. Entre os interessados no terreno de 74 hectares da FASE, está a Maiojama que é uma empresa ligada ao Grupo RBS, o maior grupo de comunicação do sul do país, defensor intransigente do liberalismo econômico. O que é bem diferente de ser, “um intransigente defensor da vida”.
Parece-me que a situação está posta. Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho...
Não tenho dúvidas, para a administração municipal os grandes investimentos em “melhorias” na cidade, são prioritários. Os interesses destes investidores também. É evidente que nós, trabalhadores (as) da economia popular e da economia solidária não participaremos do espetáculo sentados (as) nas primeiras filas. As cadeiras destas filas terão outros donos. Mas, se não fizermos a discussão e planejarmos a nossa atuação para este momento que virá, ninguém fará por nós. E não teremos lugar nem na última fila do mezanino. Ficaremos fora do teatro. 
Marco A. Darkiewicz
Artesão

Nenhum comentário: