terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cenas do Largo Glênio Peres



A Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre aprovou o PL 038/11, retirando do Largo Glênio Peres todos os eventos relacionados ao setor artesanal.
Em alguns meses, a representante da Coca-Cola no estado, poderá renovar a Parceria Pública Privada celebrada entre ela e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre em março de 2010, por mais um período. 
A primeira parceria, com dois anos de duração, encerra em março de 2012.

           
 O Largo Glênio Peres é da Coca-Cola e dos automóveis, “como o céu é do condor”.

Olhando o detalhe. Com olhos de artesão.
Dois, dos vários painéis com maravilhosas fotos, do excelente projeto ARTEMOSFERA, expostos no muro do Chalé da Praça XV, escondem a placa inaugural do Largo Glênio Peres.
A placa foi colocada ali em 1992 e define Glênio Peres, ex-vice-prefeito da Capital como: “Um intransigente defensor do direito a vida”

É urgente a mudança!

Dentro dos movimentos sociais, assim como em qualquer outro setor da atividade humana sabemos que não podem haver posições rígidas e estanques. Quantos exemplos ao longo da história comprovam isto. Ditaduras e regimes caíram por não aceitarem as mudanças que a sociedade necessita e exige nas mais variadas instâncias. A abertura para novas atitudes e idéias é cada vez mais premente em relação às inovações no tecido social. Talvez nós ainda estejamos  vivendo as consequências desastrosas de uma ditadura que nos oprimiu por duas décadas, privando-nos do debate construtivo e progressista que tanto precisamos. 
Trazendo o foco para a luta que os Artesãos gaúchos travam para que seus interesses e aspirações tenham eco na sociedade local, não podemos mais admitir que pequenos grupos queiram impor seus pontos de vista em detrimento de toda categoria que não só aumenta em número e vontade de progredir e evoluir em tempos tão difíceis para todos.
O Sindicato, as cooperativas e associações têm papel decisivo na defesa dos interesses da nossa classe profissional. Parece que nossas Feiras,  nossos Eventos, estão nas mãos de caciques que visam somente seus interesses e seus pontos de vista, deixando em segundo plano as aspirações maiores daqueles a quem deveriam representar. É URGENTE A MUDANÇA !
Por quanto tempo estaremos ainda divididos e enfraquecidos, faltando-nos a capacidade do debate sadio e construtivo?
Reuniões, assembleias e debates trazem o crescimento e a evolução, a exposição das ideias para a discussão, o choque aberto de pontos de vista opostos é que trazem o verdadeiro amadurecimento. Precisamos urgentemente de eleições livres e democráticas para que a evolução aconteça, caso contrário,  estaremos no caminho da dissolução e do desaparecimento.
Celso Roberto Schroder

Artesão

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Era previsível.

Prevaleceram os interesses da Coca-Cola. 
Estamos perdendo os espaços onde divulgamos e comercializamos nossos trabalhos.
Em abril de 2010, início do ano passado, a preocupação com a possibilidade de diminuição do acesso a espaços públicos, conquistados e acessados até ali pela categoria dos artesãos, foi pauta da reunião da direção do Sindicato dos Artesãos.
Era previsível que, com a Parceria Pública Privada estabelecida, no final de março daquele ano, quando o executivo municipal transferiu para a Vompar, representante da Coca-Cola, os cuidados com o Largo Glênio Peres, a Semana do Artesão, a ARTESUL e as feiras dos Fóruns Estadual e Metropolitano de Economia Solidária corriam risco de não serem mais realizadas naquele local.
Infelizmente, naquele momento, no entendimento da maioria dos membros da direção do Sindicato a preocupação com o tema era exagerada e, a resolução sobre a questão, foi de não assumir nenhuma posição que pudesse causar qualquer alteração na relação da entidade com a Prefeitura Municipal.
Pois, após um ano e meio, ficou claro que a preocupação não era exagerada.
Em 2011 as Feiras de Economia Solidária previstas para o Largo saíram com significativa diminuição de espaço físico e somente após grande mobilização. É importante lembrar que estas feiras são garantidas por lei municipal.
Mas, a Semana do Artesão organizada pelo Sindicato dos Artesãos, que teve grande sucesso em 2010, não saiu. A Prefeitura não cedeu o local.
                Quanto a ARTESUL, representantes da categoria fizeram contato com membros do Legislativo Municipal, no final de novembro, tentando garantir a sua realização.
                Quando o Programa Gaúcho do Artesanato abriu as inscrições para a feira, nos dia 5 e 6 de dezembro, pareceu a todos que o movimento tinha dado o resultado esperado. Infelizmente não foi isto que aconteceu!
                Com centenas de artesãs e artesãos inscritos e a seleção dos trabalhos que seriam expostos já realizada, veio a notícia: A feira não sai no Largo Glênio Peres!
O “Largo” não é um fato isolado.  Junte-se a este as parcerias com a Pepsi-Cola na Orla do Guaíba e na Redenção e a parceria com o Walmart no Brique da Redenção. De agora até 2014, ano da realização da Copa do Mundo de Futebol, a ocupação de espaços públicos por grandes empresas multinacionais, para divulgar suas marcas, vai crescer. Estes espaços são grandes vitrines. Atualmente visualizadas pelo público local e serão, durante a Copa, vitrines visualizadas pelos (as) turistas que aqui vierem e através da televisão pelo mundo. Uma grande divulgação com custos baixíssimos.
Realmente a preocupação com a perda de espaços não era exagerada e os fatos deixam claro: O executivo municipal não tem a menor preocupação em manter uma boa relação com nós artesãos, ele já escolheu parceiros mais convenientes.
O golpe final veio com a votação do PL 038/2011. Com origem no executivo municipal o Projeto de Lei trata da reutilização do Largo Glênio Peres.
Resultado da votação: perdemos todas as feiras.
Segue lista dos vereadores (as) que querem a continuidade do Largo Glênio Peres como espaço público de manifestações populares e eventos da economia popular e votaram a FAVOR DOS INTERESSES DA NOSSA CATEGORIA:
ALDACIR OLIBONI – PT
FERNANDA MELCHIONNA –PSOL
MARIA CELESTE – PT
SOFIA CAVEDOM - PT

Marco A. Darkiewicz
Artesão 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reflexões - Julho 2011

  
 Faltam três anos para a realização da Copa do Mundo de Futebol em nosso país. Em Porto Alegre, uma sub-sede do evento, já se percebe a preparação para ela. São obras viárias saindo do projeto, reformas e construção de estádios de futebol, ampliação, qualificação e diversificação das acomodações para turistas, preparação de pessoal para recepcioná-los... Percebe-se também, e há algum tempo vêm se intensificando, as “parcerias” entre a administração municipal e empresas privadas para a “revitalização” de espaços públicos. Entre outras, estão adoções como a das margens do Guaíba e da Redenção pela Pepsi-Cola, o Araújo Vianna pela Oppus e agora, os meios de comunicação comentam sobre ciclovias construídas com dinheiro de uma grande rede de supermercados.
Uma destas “parcerias” mexe com os interesses das artesãs dos artesãos de todo Rio Grande do Sul. É a Parceria Pública Privada (PPP), formalizada entre a Prefeitura Municipal de Porto Alegre e a Vompar, empresa representante da Coca-Cola aqui no estado. Visa a “revitalização” do Largo Glênio Peres, a duração é por dois anos e o investimento da Coca-Cola no local será de um milhão de reais. São aproximadamente sessenta e seis centavos de real, empregados pela empresa, por habitante da cidade.
É oportuno lembrar que o Largo Glênio Peres é um espaço central da cidade. Coração da Capital. Diariamente circulam por ali milhares de pessoas. Espaço único. Um recorte dos usos e costumes dos habitantes desta cidade grande. Local onde são realizados alguns eventos de exposição e comercialização de artesanato.
Pois bem, antes da “adoção” completar um ano de vida, antes mesmo do conjunto de obras previstos para o local ficar pronto, o Sindicato dos Artesãos foi impedido pela administração municipal de organizar ali o evento em comemoração a Semana do Artesão e, o Fórum Municipal de Economia Popular Solidária, teve grandes dificuldades para conseguir a liberação daquele espaço para a realização da Feira do Dia das Mães. Feira esta que é protegida por lei municipal.
Certamente todas estas transformações influenciarão nossas vidas de uma maneira ou de outra, umas mais outras menos, de agora para sempre. É para pensar.
No caso específico do Largo Glênio Peres, será um sinal do rumo que tomaram as relações artesãos/administração municipal? Estará a administração defendendo os interesses desta grande empresa, um dos grandes parceiros comerciais da FIFA, permitindo que apenas sua marca brilhe no coração da cidade, deixando de lado os interesses de outros setores populares da economia? O que você acha? Em sua opinião, este fato, toca de alguma maneira na sua condição de artesã/artesão e de cidadã/cidadão.
Já no Brique da Redenção, vamos trocar de camiseta. Sai o Visa e entra o Walmart. Finda um período de três anos em que o Brique teve o apoio do Visa. O indicado ao final de períodos como este seria a realização de uma avaliação. Com ela teríamos uma visão de onde evoluímos e até onde nossos interesses foram preservados, durante este tempo. Teríamos subsídios para que fossem evitados os mesmos erros, na fase do apoio do Walmart.
Como o Brique é um coletivo, a avaliação deveria ser coletiva. Opinião nossa, da ASSOCIARTE. Mas, não passou “do seria”, “do teríamos” ou “do deveria”... Não houve avaliação de nada! Absolutamente desnecessária! Desnecessária, também uma discussão prévia de como queremos o período Walmart. Parece que a vontade de opinar sobre as coisas do Brique sucumbiu.
Nossa entidade considera importante que cada um reflita e forme opinião sobre o que esta acontecendo. E você? Acha que a questão do apoio do Walmart foi bem encaminhada? Conhece a empresa? Tem interesse em participar do projeto? Você acha que a padronização das barracas foi positiva durante o apoio do Visa ou prefere a sua individualizada conforme suas necessidades? Você acha que o Brique ficou mais bonito de azul? Você acha que todos os apoiadores do Brique devem ser multinacionais?
Marco A. Darkiewicz
Artesão

Um intransigente defensor do direito a vida - Abril de 2010


É o que se lê na placa inaugural do Largo Glênio Peres. Uma referência à atitude existencial do advogado, jornalista, ator, poeta e político que empresta o nome àquele local.
Glênio Peres, entre outras coisas, trabalhou no Diário de Notícias, no O Estado do Rio Grande, foi colaborador do Pasquim e da revista Cadernos do Terceiro Mundo. Vereador em Porto Alegre, por três mandatos, foi cassado em 1977 com base no AI5. Anistiado em 1979 foi um dos fundadores do Partido Democrático Brasileiro. Sigla pela qual conquistou o seu quarto mandato de vereador e, também, foi eleito vice-prefeito em 1985 no mandato de Alceu Colares. Faleceu em 27 de fevereiro de 1988.
Em 1992 foi homenageado, pela cidade que ajudou a construir, com a colocação de seu nome no largo em frente ao Mercado Público, ponto central da capital de todos gaúchos e gaúchas.
O Largo é o centro, o coração da capital. E pulsa. No ritmo da cidade, no ritmo de Glênio Peres. Diariamente passam e estão por ali milhares de pessoas. Emolduradas pelo Mercado e o Chalé, compõem um cenário único, multifacetado, capaz de revelar como somos. Um recorte, do conjunto de seres e seus costumes, desta cidade grande.
            Pois, no dia 22 de março, li a notícia no RS Urgente: Coca Cola vai cuidar do Largo Glênio Peres e da Praça XV.   
            Foi o único blog onde encontrei alguns comentários sobre a notícia. Mais precisamente 25 comentários, que davam conta da contrariedade que sentiam pelo fato, a maioria das pessoas que ali postavam sua opinião.
 No dia 25 de março foi assinado o termo de adoção. O valor do investimento da Coca Cola representada no negócio pela Vonpar Bebidas, será de um milhão de reais.
                Certamente esta adoção produzirá modificações no local. Todas serão alardeadas, nos meios de comunicação tradicionais, como sendo “melhorias”. Mas, arrisco dizer, que nenhuma delas vai beneficiar aos pequenos produtores, que contribuem com a diversidade e autenticidade do local, quando o usam para mostrar e comercializar o que produzem. Estou pessimista em relação à continuidade dos eventos ali realizados. Pelo menos daqueles que reúnem pequenos produtores, como eu. Mais dia... Menos dia...
            São preocupações que aumentam quando noto não existir nenhuma discussão em relação a esta adoção ou, pelo menos, buscando saber quais são as normas que vão regê-la. Quantos espaços públicos da cidade ainda serão postos para adoção? Algumas destas áreas, que porventura vierem a transformar-se em parcerias público-privadas, são acessadas por trabalhadores (as) da agricultura familiar, por artesãos e a artesãs, artistas plásticos, atuadores de teatro de rua, artistas de rua, pequenos empreendedores da alimentação? Quais as regras gerais que regulam as parcerias público-privadas? Deve existir uma lista de locais em que a administração municipal prevê estas parcerias.
Estas preocupações não são apenas minhas. A adoção do Largo Glênio é um fato que preocupa todos que necessitam dos espaços públicos para trabalhar.
 Faltam 4 anos para a Copa do Mundo. A tendência dos grandes empreendedores da economia convencional em investir e ocupar espaços públicos deve criar corpo, de agora até lá. A permuta do terreno da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo é um exemplo disto. Mas este é um que está sendo discutido na Assembléia Legislativa. E aqueles que serão tratados como parcerias público-privadas? Quem vai discutir? A adoção do Largo Glênio Peres foi discutida com alguém?   
            Está passando da hora de fazermos uma reflexão sobre isto. Esta adoção não é um caso isolado e o histórico de atuação da atual administração municipal, mostra outros descasos com pequenos produtores. Basta olhar a situação atual do Brique da Redenção.
 As entidades de organização dos trabalhadores (as) que acessam espaços públicos para desenvolver seus trabalhos precisam chamar seus filiados para fazer esta reflexão. Primeiro no interior de cada categoria. Em um segundo momento, com o conjunto de todas elas. Penso que a estratégia deve prever a participação do conjunto de categorias.
A discussão isolada é um equívoco.  A atuação da comissão deliberativa do Brique da Redenção no caso da invasão do espaço indígena da feira é um exemplo disto. Houve erro na condução. Fizeram a cobrança da fiscalização da Smic, sem ao menos discutir a estratégia com os expositores, muito menos com o conjunto da categoria. Penso que a discussão não teve nem a participação de toda comissão. Não entenderam bem o que estava acontecendo, supervalorizaram a representatividade que tinham como comissão. E, deu no que deu. O Brique que poderia crescer em número de participantes com o controle da comissão, está e vai continuar crescendo sob o controle do acaso, ou de outros interesses.  
No caso do Brique, a questão foi pontual, o peso era um. A invasão foi feita por pequenos revendedores. No caso atual, o da adoção do Largo e o dos negócios que virão até a Copa do Mundo têm outro peso. A Vompar, que está colocando o pé no Largo, é franqueada pela maior fábrica de refrigerantes do mundo. Um dos maiores símbolos mundiais do capitalismo. Entre os interessados no terreno de 74 hectares da FASE, está a Maiojama que é uma empresa ligada ao Grupo RBS, o maior grupo de comunicação do sul do país, defensor intransigente do liberalismo econômico. O que é bem diferente de ser, “um intransigente defensor da vida”.
Parece-me que a situação está posta. Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho...
Não tenho dúvidas, para a administração municipal os grandes investimentos em “melhorias” na cidade, são prioritários. Os interesses destes investidores também. É evidente que nós, trabalhadores (as) da economia popular e da economia solidária não participaremos do espetáculo sentados (as) nas primeiras filas. As cadeiras destas filas terão outros donos. Mas, se não fizermos a discussão e planejarmos a nossa atuação para este momento que virá, ninguém fará por nós. E não teremos lugar nem na última fila do mezanino. Ficaremos fora do teatro. 
Marco A. Darkiewicz
Artesão